Metodologia

Nos 220m² escavados até maio de 2009, encontramos evidências que permitem uma hipótese preliminar sobre as causas do naufrágio e o processo deposicional:

1) encalhe em condição de ressaca e ventos do setor noroeste;
2) ruptura do casco após impacto no solo;
3) partes do lastro e da carga foram para fora do barco;
4) finalmente, casco adernou para boreste.

A parte final da quilha apresenta dois cravos com 1,7 e 1,5 m de comprimento, 14 cm de diâmetro, retorcidos para boreste, uma prova do desabamento da estrutura de popa logo em seguida do impacto no solo. Essa parte da quilha, de fato os últimos 3,58 m de comprimento, apresenta marcas do impacto, pois ela está quebrada (a peça original deveria ter ± 9 m e integrava a parte final de um conjunto de 3 peças, característicos da quilha espanhola da segunda metade do século XVII, cf. Aispuru 2003). A maior parte do trabalho ocorreu na área da popa e no campo de destroços à ré e a boreste dos restos do casco. A quilha está alinhada para noroeste, justamente no local do registro arqueológico mais sujeito à exposição nas fases erosivas. A superfície da quilha apresenta degradação das vezes que ficou sem cobertura sedimentar, causada pela fauna e as peças que estavam firmemente afixadas nela, como a curva coral, a sobrequilha, o cadaste de popa e a falsa-quilha, ainda não foram localizadas (provavelmente foram degradadas).

Não tocamos ainda a área central e a proa, que estão enterradas (esperamos fazer um mapa geofísico para determinar a posição exata destas partes). Outras madeiras, do costado, apresentam as extremidades próximas da popa com marcas de que também ficaram sem cobertura sedimentar. A cerca de 80 cm da quilha encontramos o leme, intacto, fato que indica o limite da área onde o pacote sedimentar deixava de afinar a ponto de expor o registro arqueológico. A posição da quilha e das madeiras do costado encontradas até agora indicam que o barco adernou para boreste após naufragar. As concreções do tabuado do costado indicam que o cavername daquela parte ficou exposto ao ambiente e foi destruído pela ação ambiental e pela fauna. Não localizamos, além da quilha, nenhuma parte estrutural do casco. As madeiras do costado estavam entre o lastro, e pertencem à área de transição da popa para o terço central do casco (o desenho da estrutura está em andamento e, futuramente, publicaremos sua posição em relação ao solo e ao lastro). O desenho e o fotomosaico da escavação mostram o topo do contexto arqueológico (Figs. 10 e 11). A Figura 12 representa as pranchas do costado de boreste, marcadas pelas concreções dos cravos, que foram removidas do sítio e se encontram em processo de dessalinização. A Figura 13 mostra o leme e a quilha na posição que ocupariam no casco, atualmente em processo dessalinização, prestes a iniciar tratamento químico.


Figura 10 - Desenho do Sítio Arqueológico


Figura 11 - Fotomosaico


Figura 12 - Fotomosaico Madeiras


Figura 13 - Estudo da posição do leme e da quilha


A escavação

A escavação subaquática, conforme Adams (2002:192): "é o desmantelamento controlado dos depósitos submersos, em ordem para revelar superfícies, estruturas, objetos e materiais relativos à existência do passado humano (...). Tal como na terra, os sítios arqueológicos subaquáticos não podem ser não-escavados; conseqüentemente o processo é inerentemente destrutivo e apenas pode ser mitigado através de registro e publicação". Como na terra, realizamos a prospecção, escavação e remoção, intermediadas pelo registro detalhado e, quando necessário, pela conservação in situ e no laboratório de materiais frágeis, procurando seguir sempre os mais elevados padrões técnicos dentro da perspectiva de que a escavação não é um fim em si mesmo (Bass 1980:143; Dean 1988; Marsden 1994; Green 2004:236).

A escavação teve duas etapas, com mais de 1.200 mergulhos concluídos sem nenhum incidente para a equipe: 1) março de 2004/fevereiro de 2005; 2) fevereiro/maio de 2009. Ambas foram interrompidas pela pesca da tainha (29/04-26/07/2004; 15/05-31/07/2009). Foram seis dias por semana, com dois ou quatro mergulhadores em ação (mais o apoio fora da água), totalizando 173 dias na etapa 1, com 1.172 horas/equipe (média de 6,7 horas/dia/equipe). Na etapa 2 foram 82 dias, com 827.06 horas/equipe (média de 10,22 horas/dia/equipe). As condições climáticas e de visibilidade subaquática favoreceram a segunda etapa, possibilitando mais dias e horas de trabalho subaquático. Realizamos, paralelamente, o trabalhado de laboratório, a pesquisa bibliográfica, a consulta às bibliotecas virtuais e fomos aos arquivos públicos de São Paulo e Santa Catarina. A escavação parou em abril de 2005 e reiniciou em fevereiro de 2009, mas a conservação não foi interrompida, sendo realizada na UNIVALI.

Para fins de registro dividimos a área da escavação em quadrículas de 4 m2, georreferenciadas com pontos de controle subaquáticos e terrestres. Os pontos terrestres partiram de um marco geodésico. Foi usado um DGPS (Ashtec Tecnology) com bases fixa e móvel com precisão de 5 mm e uma estação total (Leica Geosystems). A marcação das coordenadas foi realizada com o deslocamento do prisma no topo de uma haste apoiada diretamente nos pontos de controle das quadrículas. As marcações foram transferidas para o programa ArcView 8.3, convertidos em arquivos shapefile e processados para permitir a geração de arquivos vetoriais, para integrar os desenhos e fotos usados para construir o mapa geral da escavação e das estruturas em 3D (Marino 2006:56).

As quadrículas são balizadas por quadrados com 2 m de lado, de barras de ferro galvanizado afixadas em uma base do mesmo material, que se ajustam à superfície do terreno (Fig. 14). Essa técnica substituiu com vantagem as estacas e cordames, não perturba a camada arqueológica e permite a rigorosa orientação espacial. Suas bases são constantemente enterradas pelos sedimentos, estando sempre firmes em seus lugares. A partir do datum zero, foram justapostas várias quadrículas que podem ser movidas em todas as direções conforme avança a escavação, sem perder o alinhamento e as coordenadas geográficas. Quando o trabalho é interrompido algumas quadrículas ficam enterradas para retomar a escavação sem perder a posição da área.


Figura 14 - Quadrículas metálicas e peneira



Para o registro com desenho e fotografia é acoplado nas quadrículas metálicas um gabarito de aço nivelado na horizontal, marcado em intervalos de 10 cm, servindo como régua para mensurações, balizamento e orientação da escavação e do registro. Após a conclusão do registro e da remoção dos artefatos, é aberta nova área de escavação e o processo repetido, em espaços previamente numerados e definidos em plano cartesiano, dispostos no eixo X/Y, permitindo a orientação geométrica e um registro que reproduza o contexto arqueológico em 3D. As peculiaridades locais obrigaram a adaptar os métodos de registro (Green 2004). A luta travada entre a imprecisão meteorológica, o cronograma e a conservação, nos levou a abrir pequenas unidades de escavação (4 m2 por vez) e eliminar o uso constante de trenas e réguas, aplicando outras técnicas de registro que representem com fidelidade e detalhe o contexto escavado, para análise e publicação. Foram três técnicas de registro: catalogação, desenho e fotomosaico (Fig. 15). Os objetos são etiquetados e desenhados in loco (escala 1:1) em pranchas de acrílico de 1 m2. No laboratório os desenhos são transferidos para papel vegetal de 1 m2 (escala 1:1) e, a seguir, copiados na mesa digitalizadora e arquivados eletronicamente em CORELDRAW para compor o mapa da escavação (escala 1:1). A turbidez e a pouca profundidade obrigaram a posicionar a câmara fotográfica a uma distância média de 1,2 m do solo, com 42 fotos por 4 m2. As fotos são digitalizadas e tratadas inicialmente com ADOBE PHOTOSHOP (cor, contraste, brilho, dessaturação equalização de curvas), arquivadas com alta resolução; a seguir, com o CORELDRAW, é montado o fotomosaico de uma quadrícula com resolução variável entre 300 a 600dpi. O fotomosaico geral de toda a escavação é mais fácil de trabalhar com ADOBE PHOTOSHOP (partimos do modelo de Martin e Martin, 2002). A elevada turbidez limitou, geralmente impediu o registro panorâmico do contexto arqueológico e do processo de escavação, restringindo a visibilidade a pouco mais de uma quadrícula e seu entorno imediato. Há pequenas diferenças entre desenho e foto, mas conseguimos um elevado nível de precisão com o desenho, considerando as dificuldades visuais impostas pela turbidez da água. Procuramos realizar esses registros sempre próximos do meio dia por causa da iluminação natural, com o sol no zênite (eventualmente, a condição da água atrasou o horário).


Figura 15 - À esquerda registro com desenho na placa de acrílico;
à direita, fotografia.


Detalhe do registro, comparando o desenho com o fotomosaico de uma quadrícula com 2m de lado (Fig. 16):


Figura 16 - Desenho e fotomosaico da quadrícula 03


Antes de cavar, as quadrículas metálicas foram instaladas sobre a camada estéril, para balizar o trabalho. O solo estéril é rebaixado em linhas paralelas para acomodar gradativamente um conjunto de quadrículas até a altura anterior ao início do registro arqueológico, cuja topografia é irregular devido às diferenças volumétricas do conteúdo. A forma da área da nossa escavação é côncava, cercada de barrancos de altura variável chegando ao máximo de 2,5 m abaixo do nível do solo. Como o comportamento das marés e correntezas foi normalmente acrescivo, tendendo a assorear a escavação, adotamos uma estratégia de contenção distanciando os barrancos nas principais zonas de acréscimo, removendo periodicamente o assoreamento (Fig. 17). Com a força do mar, não conseguimos instalar barreiras ao redor da escavação. As técnicas empregadas variaram conforme a composição da camada.


Figura 17 - Rotina: afastando o barranco da área de escavação


Os principais instrumentos foram a mão, para abanar o sedimento e a "poeira" (Fig. 18); e o air lift, o equipamento padrão da arqueologia subaquática desde os anos 1950. O desenho contemporâneo e o conceito de manuseio cuidadoso foram estabelecidos em 1960-61 por George Bass (1971:138), que o considerou como a "pá" do arqueólogo subaquático. Trata-se de um cano rígido onde passa ar comprimido introduzido na extremidade junto ao solo, para extrair sedimento e transportá-lo até a peneira fora da área da escavação (Adams 2002; Green 2004:252-256). O poder de sucção depende da relação entre o diâmetro do cano (6-16 cm em média), profundidade e volume de ar fornecido pelo compressor. Quanto mais espessa a coluna de água sobre o local de trabalho, maior a capacidade de sugar metros cúbicos de sedimentos por hora trabalhada. Embora seja um aparelho indicado para profundidades a partir de dois metros, nós empregamos em lâmina de água de até um metro devido à maré baixa e ao espessamento do pacote sedimentar, quando a capacidade de sugar por hora fica tremendamente reduzida. Sua função primária, com canos de maior diâmetro, é remover a camada estéril sobre o sítio arqueológico. Sua função secundária, com canos de menor diâmetro e com fluxo de ar comprimido com baixa potência, é auxiliar na remoção cuidadosa dos sedimentos e da "poeira" diretamente sobre/entre o registro arqueológico, evitando tocar e mover os artefatos (Murphy 1997; Green 2004:253-256). O sedimento sugado é conduzido a uma distância de 14 metros da área de escavação, para uma caixa coletora metálica estruturada com cantoneiras galvanizadas e fechada por telas de diferentes tamanhos para conter as evidências arqueológicas e descartar o sedimento (Fig. 14). Nem sempre é possível evitar a sucção de pequenos artefatos, como contas de colar, que às vezes são abanados para o airlift (a baixa pressão de ar comprimido aplicado no registro arqueológico raramente causou dano aos artefatos). A caixa coletora é dividida em duas partes, com dois tamanhos de malha das peneiras que a envolvem. A parte superior possui paredes de chapa de aço com furos de 4,8 mm de diâmetro, e a parte inferior tem paredes de chapa de aço galvanizada com furos de 3 mm de diâmetro. Entre as duas partes há uma tela de malha de aço galvanizado 25x25 mm. A caixa fica sobre um flutuador, recebendo o material sugado pelo airlift. Quando cheias, são levadas para terra, onde é feita triagem para separar:

1) fragmentos de conchas de moluscos;
2) biodetritos;
3) fragmentos de madeira, carvão, couro, seixos do lastro e concreções;
4) matéria orgânica;
5) fragmentos de cerâmica;
6) pequenos artefatos;
7) lixo moderno;
8) fragmentos de ossos de peixes e cetáceos;
9) organismos bentônicos (são separados exemplares para classificação e análise).



Figura 18 - Uso do airlift e abano manual


Após a remoção dos sedimentos os artefatos e objetos considerados mais relevantes são marcados e catalogados com etiquetas acrílicas brancas com um código de controle. Os demais objetos, como lastro e fragmentos cerâmicos, são transferidos para caixas específicas com o número da quadrícula e transportados para o laboratório. Artefatos e objetos pequenos são colocados em embalagens apropriadas para levá-los ao laboratório e sua posição é marcada no mapa da escavação. Geralmente, dependendo do horário da escavação e das condições climáticas, os artefatos e objetos mais frágeis são removidos antes do registro, visando manter sua integridade, mas sua posição é marcada no mapa da escavação. Nessa etapa cada objeto recebe a primeira parte do seu código de tombo, correspondente ao número da quadrícula.